
Imagine para uma criança com a idade que eu tinha, o que significou esta viagem do Rio de Janeiro à João Pessoa a bordo de um navio no final dos anos 40. Minha avó me deixava muito à vontade, não ficava me controlando, e assim pude "explorar" o navio todo, desde a casa de máquinas até aonde as duas chapas de aço que faziam a sua proa se juntavam no vértice mais proeminente da embarcação. Lembro do navio saindo pela barra da baía de Guanabara, 'caturrando' nas ondas e eu com o peito encostado lá onde essas chapas formavam o bico do navio, olhando para baixo e vendo o bigode de espuma que se formava pela água sendo cortada pelo casco.
O navio ia pingando pelos portos da costa subindo em direção ao norte. Em cada porto ele atracava, descarregava e carregava (naquela época as ligações entre as regiões brasileiras não dispunham de uma malha rodoviária eficiente que as interligassem e o sistema nacional de transportes, parte ferroviário, parte rodoviário era precário, e estes navios de cabotagem, que é como eram chamados, eram os principais responsáveis por grande parte do abastecimento das capitais). Como diz a música do Caymmi, eles vinham do norte desde Belém do Pará, e iam até Porto Alegre no Rio Grande do Sul, descendo e depois subindo a costa brasileira carregando e descarregando mercadorias. Assim, paramos em Vitória, Salvador, Aracajú, Maceió, Recife e chegamos por fim a João Pessoa. A viagem deu-se durante o carnaval e havia bailes à noite no navio, animados por uma pequena orquestra de músicos de bordo, após o jantar na mesa do comandante. Parecia filme. Na Bahia ficamos uns dois dias e fomos conhecer uns primos distantes. Visitamos uma prima de minha avó, portanto minha também, abadessa de um famoso convento que produzia um licor delicioso cor de violeta. No Recife era pleno carnaval e desde o cais viam-se blocos de foliões.
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