sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Amigos sumidos


São vários os amigos que foram sumindo ao longo da vida. Mas de muitos tenho saudades e boas recordações. Muitos me ajudaram, me ensinaram, foram companheiros em horas difíceis, me disseram coisas importantes. Alguns sumiram para nunca mais, outros eu simplesmente perdi o contato. Mas onde quer que estejam, tanto os que já se foram quanto os que ainda estão por aí em algum lugar, fiquem todos sabendo que guardo-os do lado esquerdo do peito.

Eduardo Caillaux
Gilda e Freida
Carl Regehr e Grace GianforteRutinha Cheferrino Waldir AbifadelÉlcio CostaDr. SylvioJulio Cesar Christophe da Silva (Murce)Jefferson Barroso, o Tio Gê
Paulo Ramagem
Marcus Llerena e Rosani Ramos
Bia Bornhausen
Alice Maria Ruckert
Arino de Mattos Filho

28. Bloco das Piranhas


Foi num Carnaval no início dos anos 80 que eu resolvi sair no tradicional Bloco das Piranhas de meu grande amigo Bernardo Ferreiro. A concentração foi na casa dele, lá no morro do Abílio. Naquele tempo eu tinha um Dodge Dart V8, 2 portas, azul metálico com teto de vinil preto que tinha o apelido de Alberto Roberto (personagem do Chico Anísio que interpretava um ator de teatro canastrão e completamente ultrapassado) que caía nele como uma luva. Fui nesta figura aí dirigindo o Alberto Roberto, desde as Charitas até a rua Indígena que dava acesso à uma travessa que levava à casa do Bernardo. Lá rolou de tudo e de lá saímos (uma verdadeira cachorrada) batucando e cantando pelas ruas Marques de Paraná, São João, Barão do Amazonas e Conceição. Paramos em todos os bares, cantamos e sambamos pelas ruas. Nem eu mesmo, vendo esta foto hoje, acredito que tenha sido capaz de ter feito aquilo. Mas me lembro que foi muito divertido. O bloco era puxado pelo Maurício Borges (Macaco) e atrás dele vínhamos nós. Inesquecível!

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

27. Tentativa de decolar

O estúdio no porão da casa em frente à nossa, nas Charitas era realmente muito simpático. Pelo lado de dentro da porta de vidro ficava um boneco em tamanho natural do Fantasma (das histórias em quadrinhos) que tinha sido um brinde da Editora Globo para a qual eu e o meu amigo Aldo Luiz de Paula Fonseca tínhamos feito alguns trabalhos.



As paredes eram revestidas de trabalhos que eu tinha feito recentemente para diversos clientes/amigos. Trabalhos para a Chuka (empresa de confecção infantil do Waldir Abi-fadel), para a Rapo (empresa de confecções da Telma Yamagata), para a VendeModa (empresa de moda adulta também do Waldir Abi-fadel), trabalhos para a Sobremetal (multinacional de processamento de escória de aço cujo diretor era o Zeca Gurgel do Amaral), Relatório Anual para a Petrobrás (intermediado por meus amigos Jorge e Alexandre Sávio da Gráfica Europa), início de uma relação de trabalho e continuação de uma relação de amizade que se aprofundou posteriormente com meu velho e hoje saudoso amigo Arino de Mattos Filho, tabelião de Niterói para quem desenhei inicialmente um logotipo para seu cartório que era o único da cidade que ostentava uma imagem que se reproduzia na fachada, nos papéis, nas capas dos processos e em vários ítens, algo inteiramente inusitado, pois todos os outros usavam aquelas pastas tradicionais feitas na tipografia da esquina e que se usam até hoje. O momento na economia era de um certo aquecimento e eu senti que aquele escritório alí naquele porão úmido das Charitas deveria adquirir uma feição mais profissional e aluguei uma sala na sobreloja do edifício Center IV, em Icaraí, justo em cima da loja de venda de materiais de decoração (cortinas, revestimentos, etc.) que minha mulher tinha em sociedade com a irmã Cristina. Meu ex-aluno Nelson Moraes Mendes tornou-se meu sócio e a Ângela Lima Souto continuou sendo nossa estagiária. Não sei de onde surgiu a Claudia Morpurgo, filha da Tereza, e neta do velho Dr. Admar Morpurgo, velho amigo da família de minha mãe, um velho médico histriônico. Ela era estudante de Belas Artes e pensou que podia também estagiar ali conosco mas acho que percebeu que aquela não era a praia dela. De alguma forma o escritório ia se mantendo e fazendo trabalhos basicamente para as indústrias e principalmente para o comércio de moda de Niterói. Muitas lojas de Icaraí tinham marcas desenhadas pelo nosso escritório. Nosso boy Zé Carlos continuava firme conosco e a Laura, irmã da Ângela Lima Souto era a nossa secretária. Minha relação de trabalho com o Aldo Luiz - que àquela altura parecia não estar mais satisfeito com o emprego de diretor de arte da Polygram (gravadora e editora fonográfica) desenvolveu-se mais e virou uma parceria empresarial. Abrimos uma firma que se chamou Artistas Gráficos Ltda.

Naquele mesmo endereço do Center IV. Esta tentativa de tornar-me empresário, aliada à crise que se abateu sobre a economia brasileira com o fim do chamado "milagre econômico" como o chamou o ministro Delfim Netto, me fez vender a casa das Charitas. Fomos morar por empréstimo num apartamento que tinha sido do Aldo Luiz e naquele momento era do publicitário Roberto Wrencher, amigo do Aldo Luiz, e que ficava na rua Lopes Trovão, esquina com rua Barros. Minha mãe havia morrido recentemente e eu e meus irmãos tínhamos herdado um belíssimo apartamento que era nosso (em usufruto dela) alí mesmo na rua Barros, a uns 50 metros de apartamento do Roberto Wrencher. Fomos para lá então, e com o dinheiro da venda da casa das Charitas, montamos o apartamento da rua Barros - este da herança. Tudo novo. Todo atapetado com tapetes Cerello; móveis todos novos da Tok-Stok. Como o Aldo Luiz vinha da indústria fonográfica, trouxe consigo alguns clientes dessa área. Fizemos alguns trabalhos interessantes para esse segmento. A capa do primeiro disco do Lulu Santos - um compacto simples, que é como se chamavam os discos daquele formato, com uma música de cada lado; uma capa muito interessante para o disco 'Escândalo' da Ângela Rorô; a capa do primeiro disco lançado após a morte da Elis Regina, a capa de um disco extemporâneo da Marília Medalha, outras capas para a Warner Records através do Heleno Oliveira, um dos executivos da gravadora, das relações do Aldo Luiz.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

CPMF - Perguntar não ofende

Os bancos pagam CPMF ao governo? Não são os bancos que fazem as maiores movimentações financeiras? Como é que são os bancos as empresas que têm aqueles lucros astronômicos que vemos publicados nos jornais? Eu decidi não usar mais cheque, e só tenho conta em banco porque o meu mísero salário de professor aposentado é depositado no banco pelo governo. Vou ao banco no dia do pagamento, saco tudo, que aliás é quase nada, e pago as contas das empresas que - estas sim - produzem alguma coisa que me mantém sobrevivendo (alimentos, vestuário, remédios, transportes, luz, gás, telefone, etc). Já enfrentei momentos de dificuldade financeira em que tive que recorrer a particulares que emprestam dinheiro à juros. OS JUROS QUE ELES COBRAM SÃO MAIS BARATOS DO QUE AQUELES QUE OS BANCOS COBRAM (mas mesmo assim são chamados de agiotas, quando agiotas são os bancos protegidos pelas benesses do governo). E esses particulares ganham dinheiro nos emprestando dinheiro.
O que é que os bancos produzem? CPMF? Aqui, ó!

domingo, 9 de dezembro de 2007

26. Rocks rurais.


Foi quando morávamos na casa das Charitas que começamos a acampar com mais freqüência. Descobrimos um lugar que hoje não mais permite que nele se acampe, no alto das Agulhas Negras mais perto daqui de Resende onde hoje moramos. Íamos de Niterói com os amigos, depois de muitos preparativos e reuniões onde se decidia o que íamos levar, e juntávamos nossas muitas barracas que formavam num grande circo e era bonito de se ver.



Demandava uma certa engenharia para armar as barracas todas de um certo modo. Nossa vontade de acampar era tão grande que em todos os feriadões, desses que juntavam a quinta-feira da semana anterior com a terça-feira da semana seguinte deixando enforcadas a sexta-feira da semana anterior e a segunda-feira da seguinte subíamos a serra da Mantiqueira indo pela Dutra e saindo dela no entroncamento para Engenheiro Passos indo em direção a Itamonte, por uma belíssima estrada bem desenhada, com as curvas compensadas, que tinha sido projetada pelo pai de João Sampaio (nosso amigo de juventude e arquiteto que foi prefeito de Niterói). Numa localidade chamada Registro, deixávamos essa estrada e entrávamos à direita por uma estradinha que ia serpenteando e subindo 8 km em direção às Agulhas Negras. Lá em cima num local conhecido por Brejo da Lapa tínhamos o "nosso lugar".


Os acampamentos eram ótimos. Muito frio. Geadas às vezes no inverno e gêlo sobre a água do brejo. Fogueiras à noite, todo mundo tomanho banho nú juntos, e fazendo cocô no mato. Algumas vezes fechávamos as barracas e descíamos a estradinha indo até a cidadezinha de Itamonte. Uma das vezes que fomos lá, nossas filhas e a Luluca que era uma das amigas delas e que foi acampar conosco, entraram num concurso de dança de adolescentes numa matinê na "Boite Barrica Som" e arrebataram todos os prêmios e devem ter mexido com os corações dos jovens locais. Em outra ocasião, também em Itamonte, fomos durante um carnaval assistir ao desfile das pobres escolas de samba locais. O samba-enredo de uma delas, cujo nome não me lembro, exaltava as belezas locais e dizia: "Itamonte, seu nome já diz/Nasceu entre os montes/ Seu povo é feliz".



Voltávamos para nosso acampamento de madrugada e ele estava lá, intacto, no ermo do Brejo da Lapa, iluminado pela luz de uma lua que parecia um enorme queijo de minas. Depois de termos ido dezenas de vezes acampar no Brejo da Lapa, decidimos explorar outros locais e fomos pela primeira vez a Visconde de Mauá. Naquele tempo (entre 1975 e 1980) lá não havia senão algumas pouquíssimas pousadas. Acampamos onde anos mais tarde foi construído e está lá até hoje (2007) o Hotel do Amaro. Chovia torrencialmente às tardes e às noites. Ficávamos nas barracas tocando violão e cantando, e pelas manhãs saíamos para explorar o local. Tudo era bonito e divertido. O rio Preto era limpíssimo e nos proporcionou muitos banhos nos quais deixávamo-nos levar pela sua correnteza. Desde aquela primeira vez, fiquei apaixonado pelas belezas de Visconde de Mauá e disse que um dia ainda iria morar lá. Animei meu cunhado Paulo Ramagem a conhecer aquele lugar e ele foi se hospedar com a Luiza e os filhos (acho que três naquele tempo) no hotel Chalés Planalto que hoje tem outro nome. Ele também se apaixonou pelo lugar e acabou comprando um grande sítio onde construiu uma casa.

25. A alegria da casa das Charitas.


A Casa das Charitas era muito alegre. Nela recebíamos nossos amigos com os quais brincávamos de fazer música. Tivemos até durante um certo tempo o piano que havia sido de minha mãe e que depois mandei de volta para a casa do meu irmão mais novo de onde veio quando ele precisou ser internado. Lá ficávamos tocando instrumentos e cantando nos fins de semana. Nossas filhas, por sua vez recebiam seus amigos e amigas adolescentes não apenas para desfrutarem da piscina, que era a grande atração, como também para as trocas comuns da idade. Às vezes o quarto delas amanhecia um mar de colchonetes com vários amigos e amigas dormindo pelo chão. A vizinhança era simples, só casas. Na casa da esquina moravam dois meninos o Wagner, que atendia pelo apelido de Vaguinho, e seu irmão Waltemir, que era o Valtemirzinho. Tínhamos trazido as cadelas Maricota e Florisbela que tínhamos desde a casa do morro de Santa Teresa.


Quando, por nosso descuido alguma delas, sobretudo a Florisbela (da raça pointer) fugia era um problema trazê-la de volta. Mobilizava-se toda a vizinhança. Da varanda de nosso quarto tínhamos uma vista para o Saco de São Francisco e no silêncio da noite, ouvíamos o barulho das ondas quebrando na praia.



As meninas, e nós mesmos, vivíamos dando festas. O aniversário de 15 anos da Adriana foi uma grande festa com mesinhas em volta da piscina e garções servindo. Já o da Priscilla foi uma festa à fantasia, na qual eu fui fantasiado de lutador de kung-fu. Foi nesta casa que a Priscilla começou a desenvolver sua aptidão para o teatro. Ela inventou um teatrinho de bonecos, com um sistema de manipulação original. Tinha cenários, personagens e algumas "peças" ensaiadas. Eu construí uma caixa com cortina que se abria e luzinhas de árvore de Natal na ribalta. O teatro chamava-se "Teatro Anônimo" (isto foi por volta de 1978/79) e houve uma noite de estréia para a qual foram convidados os amigos dela e os nossos. Aliás não havia muita diferença entre quem era amigo de quem. Nossas filhas se relacionavam de igual para igual com os nossos amigos e vice-versa. O sucesso desta estréia foi sensacional. Uma das peças passava-se num "saloon" de faroeste e chamava-se "O Xerife Ted e sua Adorável Esposa", na qual o xerife Ted, naturalmente, era o protagonista. Adriana que já devia ter seus 15 anos estava às voltas com as primeiras ilusões e desilusões amorosas. Priscilla aparentemente ainda não estava nesse momento. Dedicava-se à criatividade e depois do sucesso do "Teatro Anônimo", escreveu um livro que decidiu publicar. Chamava-se "No Reino das Pulgas". Contava as aventuras de uma pulga que vivia nos pelos de um cachorro chamado Bernardo. Não sei de que maneira ela interessou uma editora de livros infantis a publicar o livro. Ajudado por meus amigos Jorge e Alexandre Sávio, donos da Gráfica Europa, consegui a composição tipográfica de graça e à partir dos desenhos da Priscilla finalizei as artes das ilustrações dela para a capa. O livro foi lançado, teve tarde de autógrafos e tudo, e foi adotado como livro-texto por algumas escolas, principalmente aquela onde ela estudava, o Minigay. Todo ano íamos com ela à editora receber os "royalties" sobre a venda do livro. Era uma ninharia e da última vez que fomos, o dinheiro mal deu para pagar o estacionamento. Mas, de qualquer modo foi algo que gratificou-nos a todos.


Abaixo uma poesia de minha mulher Anna lembrando da casa das Charitas:

Charitas

Casa da melhor memória
Da fase de glória
Casa do recreio da vida
Casa divertida
Casa da cantoria
Que tanto de noite ou dia
Vivia cheia de gente
Casa ardente
Casa movida a som
Com fantasia de reveillon
boiando na piscina
Casa de Dona Lica e Dona Pedrina
Casa bem perto da esquina
Na rua João Delgado
Casa em que todo dia
parecia feriado
Casa da liberdade
Do auge da mocidade
Casa do outdoor do chiclete
Do louro pintando o sete
E aprendendo francês
Casa da cachorrada
Que de fêmeas
Tinha três
De muita fartura na mesa
Pra alimentar a moçada
Casa da gata siamesa
E sua fáfrica de filhote
Casa da Papelote
Casa de era uma vez
Pintada na parede do quintal
Casa de varanda com rede
E de por de sol especial
Casa das festas com garçom
Casa repleta de artistas
Casa tudo de bom
Casa de Charitas.


sábado, 8 de dezembro de 2007

24. Do high-tech para o my-tech

Sempre fui muito irrequieto e até um pouco afoito e intolerante em relação a certas coisas, e essas características de minha personalidade aliadas a uma certa arrogância não me deixavam ficar sem fazer nada e também não permitiam que eu me dedicasse a coisas que eu considerava medíocres em todos os (muitos) empregos que eu tive. Assim, embora o SERPRO fosse um ótimo emprego e representasse a possibilidade de uma longa carreira e uma boa aposentadoria - coisa que eu nem considerava na época, chegou um momento em que, por algum motivo ligado àquelas características minhas eu decidi que deveria tentar uma carreira solo. Com o ótimo salário do SERPRO tínhamos comprado nossa primeira casa no bairro das Charitas, em Niterói, na rua João Delgado 10, a segunda rua paralela à praia (antes do alargamento e do calçadão que existe hoje cheio de quiosques). Era uma casa muito interessante de dois pavimentos e dois quartos. Tinha, no pavimento inferior, um corredor de entrada que dava logo acesso à cozinha (do lado esquerdo) e do lado direito, à uma escada que levava ao segundo pavimento. Em baixo dessa escada construí um lavabo e a parede do corredor em frente à porta desse lavabo eu revesti com um "outdoor" do Chiclete com desenhos inspirados nos desenhos do Robert Crumb como o que se vê abaixo.


A sala vinha logo em seguida e era conectada com um espaço que devia ter sido uma varanda e que agora era uma extensão da sala, embora separada dela por uma incompreensível parede, que dava para o quintal. Como o terreno era em declive, essa antiga varanda na verdade cobria um pequeno espaço que ficava ao nível do quintal e que naturalmente acabou se convertendo em meu estúdio. Meu amigo Júlio Cesar Christophe da Silva, o Murce me ajudou com uma marreta a derrubar a parede de união entre a sala e esta tal ex-suposta-varanda, juntando-a à sala fazendo com que ela ficasse enorme. No pavimento superior eram os nossos quartos. Entre eles um bom banheiro. O quarto das meninas dava para a frente e o nosso para uma varanda, que por sua vez dava para o quintal e de onde se avistava o mar. O pôr-do-sol nas Charitas é lindo, e dessa varanda, deitados na rede, podíamos vê-lo em toda sua beleza.



O tal espaço ao nível do quintal que transformei em meu estúdio era muito pequeno, embora simpático. No quintal construí uma piscina que revesti de mármore (um luxo) que o Marcelo Ribeiro conseguiu de graça de um de seus clientes, a Marmoraria São João. Eram placas uniformes, que nem azulejos, que a marmoraria ensaiava vender como material de revestimento de fachadas e que o Marcelo estava fotografando para um folheto para divulgar essa possibilidade. Fiz também um filtro artesanal para a piscina. Fim de semana e a casa ficava cheia. Amigos nossos, poucos, e das meninas que estavam na adolescência, muitos, todos na piscina que dava uma trabalheira para limpar e conservar. Piscina é bom na casa dos outros. Na parede de um dos vizinhos, o Oswaldo que confinava com o nosso quintal e que acompanhava a forma da casa dele, pintei um mural que reproduzia uma casa "fake" que ficou engraçado. Fiz um ajardinado na frente da porta de mentira e ficou bem interessante.



Os vizinhos do outro lado eram muito pobres e problemáticos mas tocavam uns chorinhos de cavaquinho num gravador aos fins de semana que eram ótimos.
Voltando à minha irrequietude, acabei por me enfadar de ter pouco o que fazer no SERPRO, embora estivesse sempre inventando algo, e pedi as contas. Eu já estava fazendo alguns trabalhos como e pretendia investir numa carreira solo. Como o estúdio em casa era pequeno, aluguei um porão de uma casa em frente à nossa na mesma rua João Delgado e ali instalei meu primeiro escritório com ares pseudo-empresariais. O Nelson de Moraes Mendes, um de meus alunos brilhantes foi meu parceiro lá e com o primeiro dinheiro que ganhou comprou uma bicicleta Peugeot zero km que ele chamava carinhosamente de “camelo”. Foi de bicicleta também que nos chegou uma estagiaria que estava concluindo seu curso na ESDI, a Ângela Lima Souto - muito séria e competente. Tínhamos também um boy, o Zé Carlos que entre outras coisas gabava-se der ser, como ele dizia, “meia quatro” (que imagino que se referia ao ano que ele nasceu, 64, mas que para mim tinha outra conotação e acabou virando um adjetivo que uso até hoje para qualificar certos tipos).

23. O IACS da UFF

Morávamos nessa ocasião num apartamento tipo casa (com quintal) no morro de Santa Teresa em Icaraí, um lugar tranqüilo. Alameda 24 de outubro 133-a. Tinhamos duas cadelas (Maricota e Florisbela) e um papagaio que me cumprimentava sempre que eu entrava: "Coméquié, ô rapá". Nosso vizinho do apartamento de cima era o Roberto Duarte Alvares de Castro, o Roberto Babau, na época diretor do recém criado Instituto de Arte e Comunicação Social da Universidade Federal Fluminense. Ele me convidou para ser professor lá. Fiz um concurso "pro-forma", junto com outro rapaz que também estava entrando para ser professor lá, o Eduardo de Castro Neiva Jr, uma ótima figura, que vinha da Universidade de Indiana nos EUA. Assim comecei minha carreira de professor na UFF onde acabei trabalhando por 25 anos. No início o IACS, como era e ainda é chamado o Instituto de Arte e Comunicação Social, funcionava numas salas emprestadas do prédio do Instituto de Matemática no Valonguinho.

O Instituto de Matemática em foto de Edmundo (Luiz Edmundo de Castro). O Edmundo jamais acreditou que um dia a fotografia viria a ser digital. Bom fotógrafo, boa gente.

Depois o IACS iria se mudar para um velho casarão onde tinha sido o antigo e tradicional Colégio Bittencourt Silva.

Neste casarão do velho Bittencourt Silva descobri um velho portão que era um depósito de carteiras e mesas quebradas, limpei-o com a ajuda de meus alunos, pintamos o porão, fizemos luminárias de latas de óleo lubrificante, trouxe lâmpadas de minha casa, pois por incrível que pareça, a UFF não tinha uma verba para trocar lâmpadas ou comprar novas, e instalei uma sala/estúdio bastante simpática e sem aquele aspecto de sala de aula. Neste estúdio dei as melhores aulas de minha carreira de professor. Ali tive como aluno brilhante, entre outros, o Nelson Moraes Mendes que mais tarde veio a ser até meu sócio num escritório que primeiro funcionou experimentalmente num porão em frente à minha casa e mais tarde num prédio comercial em Icaraí.
Enquanto professor do IACS, tive excelentes alunos que se destacaram e hoje devem ser bons profissionais. Também tive alunos medíocres que não devem ter ido muito longe. Jamais dei uma prova a meus alunos. Dizia a eles que quem os aprovaria ou reprovaria seria a vida, pois é assim que acho que é. Eles parece que gostavam de minhas aulas. Fui por três vezes convidado a ser paraninfo de turmas que se formavam. Senti-me honrado com isso nas três vezes. Uma de minhas alunas brilhantes, que todos os que vêem o "Globo Esporte" conhecem é a Milena Ceribelli.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

22. Do desvio para o high-tech.


De uma forma ou de outra, a experiência com as projeções de arte cinética à noite na parede de edifício em frente à nossa casa acabou dando frutos. Um dos passantes que parou para ver foi o Norton Tavares da Cunha Mello, que vinha a ser amigo do Paulo Ramagem, meu concunhado, casado com a Luiza, irmã da Anna, e ficou impressionado com o que viu e no ato me convidou para ir trabalhar no SERPRO, Serviço Federal de Processamento de Dados - onde era alto funcionário, a fim de preparar material visual para "venda" de prestação de serviços daquela empresa pública para seus clientes (que eram também órgãos públicos). Bom salário, consideração, bom ambiente de trabalho, ótimos colegas. Naquela época (1973) a tecnologia do processamento de dados dava seus primeiros passos.



Os computadores eram do tamanho de geladeiras e eram centenas de vezes menos poderosos do que este no qual estou escrevendo. Era cheio de luzinhas que piscavam como nos primeiros filmes de ficção científica que apresentavam aquelas máquinas como coisas do futuro. As impressoras eram do tamanho de duas máquinas de lavar roupa postas lado a lado e faziam um barulho ensurdecedor. Essas máquinas enguiçavam a toda hora e tinha um engenheiro/mecânico/eletrônico super especializado residente, isto é, morava literalmente no CPD - Centro de Processamento de Dados - que era como se chamava a sala aonde ficavam os computadores. O escritório central do SERPRO era na rua da Lapa, em cima da ACM. Minha cunhada Cristina estava namorando o Gustavo, que acabara de se formar na ESDI e estava buscando um emprego para poder casar. Levei-o para trabalhar comigo. Juntos fizemos muitos trabalhos interessantes que causavam um grande impacto usando o que naquele tempo era a última palavra em comunicação empresarial para fins de venda, os chamados "audio-visuais", nada mais do que conjugação de slides com som usando projetores simultâneos monitorados por fitas magnéticas que continham além da trilha sonora "bips" que controlavam o avanço e o tempo de exposição das imagens em cada projetor. Eu tinha aprendido essa tecnologia em Chicago e os trabalhos que fizemos no SERPRO foram muito elogiados. Muitas das trilhas sonoras foram gravadas pela voz do Cid Moreira que começava sua carreira de locutor. Desfrutávamos de um certo prestígio. Nossa posição era única no meio de toda aquela tecnologia de computação. Os colegas de trabalho (analistas de sistema e programadores de computador - que eram profissões novas na época) eram ótimas pessoas e uns figuraços. A empresa era extremamente liberal para com a aparência e o comportamento de seus empregados, todos um misto de bichos-grilo e cientistas. Barbudos, cabeludos, de sandálias e camisetas. Até mesmo os diretores. Todos tratavam-se por 'você', mesmo ao se dirigirem aos superiores do alto escalão. Como tudo aquilo era novidade, era como se todos pertencêssemos à uma mesma tribo, portanto deveríamos ser iguais, onde a hierarquia era uma mera figura de organograma. Colegas inesquecíveis: o próprio Norton Tavares da Cunha Mello quem me abriu as portas daquela empresa, Francisco Sá, Gravatão (cujo nome verdadeiro me esquecí), Jorginho da Costa Ferreira (meu diretor no CNT), Zulmar Teixeira, Marcos Santiago, Américo Lobo Júnior, Professor Homero, Roberto Garcia de Souza, Jordão, Mário, a dupla Rivero e Pondé, Frederico - o Fredy, Antônio Jorge, Carlos Eduardo Borges Rodrigues, Jozias Benedicto de Moraes Neto, William George Castello Wills, Ricardo Leão; as meninas: Cecília Pinho, Francisca, Aninha - da Seleção, Evanda, Conceição e outros e outras que me lembro das figuras mas não consigo me lembrar dos nomes. Todos com menos de 30 anos, inclusive os diretores e o presidente. O SERPRO tinha aquilo que chamava de URO's (Unidades Regionais de Operações) em 10 estados brasileiro e viajei muitas vezes àquelas localidades (aproveitando parta conhecer o Brasil) para dirigir o trabalho fotográfico (quase sempre levando meu grande amigo e fotógrafo João Castrioto) de aspectos significativos de seus trabalhos com a finalidade de documentação ou de ilustrar algo que eu estivesse projetando.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

21. No desvio, pero sin perder la ternura.

Fiquei um bom tempo em casa. Era uma casa muito interessante na rua Fagundes Varela, no bairro do Ingá, e como todas as nossas casas, tinha sempre um espaço que era o meu estúdio. O lugar em que eu trabalhava, pensava, inventava. Como estava no desvio, fiz de tudo um pouco. Fiz fotografias das coleguinhas de escola de minhas filhas, pintei lencinhos que a Anna fazia para vender. Desenvolvi um projeto de exposições modulares para o Departamento Comercial do Ministério das Relações Exteriores que nunca realmente foi apresentado, mas que era bem interessante. Fomos tocando nossa vida sem stress enquanto eu encucava alguma coisa que ainda não sabia muito bem o que era. Numa dessas encucações descobri sem querer uma propriedade do uso de um feixe de luz desfocada que atravessava slides de papel feitos com fita de teletipo que é toda perfurada aleatóriamente e que era interrompido por prismas de acrílico colorido em movimento que projetavam imagens dinâmicas interessantíssimas. Era um tipo de arte cinética. Conjuguei essas imagens com som e o resultado foi incrível. Usando um projetor de slides, projetava essas imagens em movimento na parede cega do prédio que ficava do outro lado da rua em frente à nossa casa. Os motoristas dos carros que subiam a rua viam aquele 'balé' de imagens e cores e paravam para observar melhor. Decidi que aquilo poderia virar um filme fantástico de animação abstrato. Animação era uma das coisas que eu tinha estudado em Chicago, vendo muitos filmes do Norman MacLaren do National Film Board do Canadá - um gênio da animação. Marcelo Ribeiro, fotógrafo meu amigo, trouxe uma câmera e nós filmamos um bom pedaço e colocamos som. Não me lembro mais quem teria feito um contato com alguém na TV Globo e o Marcelo iria levar o material lá para alguém ver. Achamos que ia dar samba, que íamos ganhar um bom dinheiro vendendo aquele material, mas alguma coisa que até hoje não sei e que nunca entendi direito, deu errado. O Marcelo voltou com o material. O fato é que pouco depois a TV Globo exibia uma abertura de um dos seus programas mais importantes usando uma seqüência de imagens aleatórias e abstratas extremamente semelhantes ao meu projeto. Coisas da vida. Mas a cabeça continuava trabalhando. A Anna começou a fazer lindos tapetes de paredes com a técnica de Macramé que tinha aprendido nos EUA. Elas os vendia bem e foi convidada para fazer uma exposição de seus trabalhos em Vitória, ES, e lá fomos nós numa Rural Willys que tínhamos comprado do Paulo Ramagem para Vitória. Foi o maior sucesso.

20. O Samba Mandou me Chamar

Como dizia a letra do samba "Adeus América" de Haroldo Barbosa, Geraldo Jaques e Janet de Almeida:


Não posso mais, ai que saudade do Brasil
Ai que vontade que eu tenho de voltar
Adeus América, essa terra é muito boa
Mas não posso ficar, porque...

O samba mandou me chamar
O samba mandou me chamar!

Eu digo adeus ao boogie-woogie, ao woogie-boogie
E ao swing também
Chega de rocks, fox-trotes e pinotes
Que isso não me convém.

Eu vou voltar pra cuíca, bater na barrica, tocar tamborim
Chega de lights e all rights, street fights, good nights
Isso não dá mais pra mim
Hey bop rebop, eu quero um samba feito só pra mim.

O samba mandou me chamar
O samba mandou me chamar!




A OEA - Organização dos Estados Americanos que era a entidade que me dava a bolsa de estudos ficou sem verbas para o ano seguinte e em consequência cancelou o programa de bolsas. Era aceitar a oferta de trabalhar em Champaign-Urbana ou voltar para o Brasil. A guerra do Vietnam, os distúrbios raciais, a hipocrisia, sobretudo a educação e o destino da vida de minhas filhas e outras mazelas americanas, aliadas à evidência real de que eu era um estrangeiro e jamais seria tratado de maneira igual, mesmo que fosse melhor, tiveram um peso enorme e minha decisão foi a de voltar. Como anos mais tarde diria o Ed Motta, em puro 'edmotês': "se eu fosse americano minha vida não seria assim". Voltei com uma carta de recomendação de Sergio Mendes que tinha ido fazer um show em Chicago ao qual fomos e ele do palco mandou: "Aí, Caloga, essa é para você" e atacou de "mas que nada" de Jorge Ben, que naquele tempo ainda não era Benjor. Esta carta era para o Cícero Leuenroth, dono da Standard Propaganda, a maior agência de propaganda do Rio de Janeiro na época. Embora depois da CIN eu tivesse jurado que não trabalharia nunca mais numa agência de propaganda, a necessidade de nos estabelecermos de volta em nossa pátria mãe gentil me fez aceitar o cargo de diretor de arte com um salário astronômico. Mas durou poucos meses. Era demais para a minha cabeça que vinha da Meca do design. Um dia, após voltar do almoço, mal saí porta a fora do elevador, vomitei todo o almoço no tapete da suntuosa recepção da agência. Demití-me em seguida e fui para casa.

20. Flower Power

Enquanto no pa-tro-pi rolava a cana dura, na "terra da liberdade" a juventude cujos pais, avós, bisavós, trisavós, tetravós e quase todos os ascendentes, desde os peregrinos vindos no Mayflower (estes contra os índios que habitavam o país originalmente) até John Wayne (este contra os índios de celulóide), tinham lutado numa guerra que não era deles e que só serviu para de alguma forma enriquecer o país (salvo raras exceções como o hoje Muhammad Ali que na época ainda se chamava Cassius Clay e outros tão corajosos quanto ele que rasgaram seus certificados militares e disseram NÃO à guerra), o resto da rapaziada fazia sua catarse em Woodstock. "Make Love, not War". Foram 3 dias de sexo, drogas e rock'n'roll.


Era o único jeito de aguentar com os Nixons e Lyndon Johnsons que faziam o "Apocalipse Now", then. Meu curso no Institute of Design ia indo muito bem. Eu continuava sendo o CDF que havia sido na ESDI. No início aconteceu um fato incrível que me marcou profundamente em meio à dificuldade que eu estava experimentando na adaptação à uma vida nova, num país estrangeiro, com mulher e duas filhas para sustentar. Ao final de minha primeira aula de algo como a cadeira de Metodologia Visual que eu tinha tido na ESDI, onde o professor fez a chamada, falou sobre o que seria aquele semestre com ele e distribuiu entre os alunos um papel com todas as tarefas que deviam ser cumpridas no semestre, os alunos (todos americanos) se levantaram e foram embora e eu fiquei na minha prancheta. O professor olhou para mim e eu para ele. Levantei-me e fui até a sua mesa e com a dificuldade e a insegurança iniciais falei quem eu era, (como diria o Belchior: "eu sou apenas um rapaz latino americano sem dinheiro no bolso, sem parentes importantes e vindo do interior"), o que pretendia e perguntei onde se compravam os materiais necessários à realização de todas aquelas tarefas do semestre (que eram muitas - toda a semana havia uma aula com aquele professor na qual alguma das tarefas, que não eram fáceis, devia ser apresentada cumprida). Ele respondeu algo que não compreendi muito bem mas fiquei com vergonha de pedir para que ele repetisse, mas senti que soava como uma negação. Entendi menos ainda. No dia seguinte, aquele professor me procurou (não era ainda a aula dele, que só seria na próxima semana) com um envelope gordo de cartão nas mãos (o maior envelope que jamais tinha visto - devia ter uns 80 x 60 centímetros) e me entregou. Dentro dele havia TUDO que seria necessário para que eu produzisse TODAS as tarefas que ele havia proposto. Nos olhamos nos olhos e naquele momento aconteceu aquele "entre" do qual falava Norbert Wiener, o "pai da cibernética". Este professor que a partir daquele momento tornou-se o melhor amigo que eu tive enquanto estive no ID chamava-se Carl Regehr.Ele era, em relação a Chicago, assim uma espécie de Aloísio Magalhães. Designer conceituado, intelectual, ótimo papo, grande figura.


Carl Regehr

Um dia ele me levou a Champaign-Urbana uma cidade universitária no estado de Illinois a umas 2 horas de carro de Chicago. Fomos em seu Volkswagen Camper, uma espécie de Kombi adaptada para acampamento. Champaign-Urbana é um lugar fantástico. Uma linda cidadezinha onde 99% da população é de estudantes e professores. Regher dava aulas lá e estava me levando para me apresentar a seus colegas professores numa reunião que antecedia a cerimônia de formatura de seus alunos. Fui apresentado elogiosamente como um designer brasileiro e imediatamente convidado para trabalhar lá como professor. A proposta era tentadora e me deixou sem saber o que responder. Eram tantas as coisas nas quais eu tinha que pensar: minha família, mulher, educação de minhas filhas naquele país, minha cultura, minha carreira, tanta coisa... Eu não tinha maturidade para assumir tudo aquilo. De qualquer modo o ego foi à estratosfera.
Quando nos despedimos - dele e de sua mulher Elaine que foram nos levar no O'Hare Airport - entre muita emoção, eu disse com tristeza que talvez jamais voltaríamos a nos ver novamente e que eu estava indo para muito longe. Ele me disse com candura e simplicidade que continuávamos juntos como tripulantes e que eu estava apenas indo para outro compartimento da mesma espaçonave. Me deu um beijo e nos desejou boa sorte.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

19. Fuck Nixon

Lá nos US como aqui no BR a juventude também não estava nada satisfeita com os descaminhos da política, com uma diferença a mais. A chamada "contra-cultura" (que até mais tarde tentamos copiar) já estava em marcha desde a época dos beat-nicks (Jack Kerouack, William Burroughs e outros doidões do fim dos 40 início dos 50). As mulheres tinham recém queimado os sutiãs e entre um baseado e outro a moçada gritava "fuck Nixon" e fazia o "V" com os dedos. Fomos algumas vezes ao Grant Park, perto do Lincoln Park Zoo tomar parte nesses festivais de música e protesto.






Os enfrentamentos com a polícia eram freqüentes, os veteranos de todas as guerras que aquele país já tinha inventado (e continua inventando) participavam com suas jaquetas militares furadas de balas e em cadeiras de rodas. A época era de grande efervescência política e cultural. Estava acontecendo muita coisa ao mesmo tempo. À noite, no jornal da televisão via-se, pela primeira vez, a guerra ao vivo diretamente do Vietnam. Nos fins de semana a moçada ia para os parques fazer música, fumar seus baseados e "have fun". Os ídolos mais 'cabeça' da música popular cantavam a liberdade que gostariam de ter.

Joan Baez e Bob Dilan

Os mais doidões iam mais fundo nas drogas e nos protestos. É antológica a famosa execução do hino nacional americano por Jimmy Hendrix.

Jimmy Hendrix

Outra tribo menos agressiva, mais 'cool' viajava e 'viajava' pelo país tipo "easy rider". Eram os 'hippies' (que também tentamos imitar),'drop-outs' do sistema que não estavam aguentando o que acontecia, mas que não conseguiam virar o jogo.

Janis Joplin

18. How do you do, Jack!?


O edifício da South Coles Ave. era igual a este.
Só não tinha as grades na frente.

Instalados num apartamento de dois quartos no número 7619 da South Coles Ave., um daqueles prédios velhos que se viam nos filmes, todo de tijolinho, com seus "basement apartments", saí para comprar nosso primeiro lanche. Pão de forma, mortalela (que já vinha fatiada e embalada de fábrica - nunca tinha visto isso antes) e cocacola. Tinha uma "grocery shop" na esquina de nossa rua. Alguns dos produtos nas gôndolas da mercearia eram absolutamente iguais aos que eu já conhecia (a globalização já era uma realidade, só que ainda não se falava dela), mas outros eram completa novidade. O atendente da mercearia que tinha um certo sotaque estrangeiro foi extremamente simpático comigo. Ele era árabe, tinha um nome complicado e me disse: "You can call me Jack". Foi dele as boas vindas que recebi na terra do Tio Sam. Não se via ninguém na rua. Era estranho. No dia seguinte voltei ao Jack e ele me disse que aquele bairro estava ficando perigoso, pois os negros estavam se mudando para lá em virtude do baixo preço dos aluguéis e que por isso mesmo estavam cada vez mais baixos e havia um clima de insegurança no ar por causa da discriminação. Não entendi muito bem o que aquilo significava mas fiquei preocupado. Um primo longínquo da Anna, o Julio Isnard, estava lá em Chicago fazendo um MBA na Chicago University. Ligamos para ele que veio com a mulher, a Beth, trazendo um "six-pack" de cervejas Shlitz e uns charutos. Disse-nos que devíamos procurar um apartamento em outro lugar pois aquele bairro era meio barra pesada. Julio me apresentou a um colega dele que me vendeu seu carro. Um Plymouth Valiant 63 preto, hidramático, velho de guerra, todo enferrujado por US$ 250,00, mas que aguentou o tranco comigo. Quando viemos de volta para o Brasil achei que ia acabar largando o carro para sempre no aeroporto, mas acabei vendendo-o a um vizinho por US$ 125.00. O carro gastava um litro de óleo por semana, mas, fazendo juz ao nome, nos a Washington onde fomos passar as festas de fim de ano na casa do Sergio, e trouxe de volta.



Este Valiant 63 aí está apenas um pouco pior do que o meu era.

Com a ajuda de um outro casal de amigos do Julio, a Maria Célia e o Vic (Victor Pasnick) americano colega do Julio na University of Chicago, fomos ver um apartamento em Up Town, já quase fora dos limites urbanos e entrando no primeiro subúrbio ao norte de Chigaco - Evanston. Era um edifício novinho, com apartamentos de 2 quartos para famílias tipo "low income". Ou seja, tipo a gente. Já tínhamos ido ao Salvation Army onde compramos a pouca mobília usada baratíssima com a qual mobililiamos o apartamento da Coles. Aluguei um reboque, atrelei ao carro, despedí-me do Jack e fizemos a mudança nós mesmos. O apartamento que ficava no 12º andar era grande e novo. Ficava West Eastwood Ave. duas quadras da Lake Shore Drive para dentro, na beira do Lago Michigan que dava para ver uma pontinha de nossa janela. Terminamos de mobiliá-lo com coisas que catávamos no lixo. Descobrimos o dia (sempre à noite) em que passava o caminhão do lixeiro. Então saímos de casa à tarde para ver o que encontrávamos entre as coisas que as pessoas jogavam fora. Conseguimos assim um grande tapete para a sala, um umidificador (extremamente necessário no inverno quando a casa fica toda fechada com o aquecimento ligado) e várias outras coisas. A mala do carro voltava cheia de cacarecos. Nossas filhas se divertiam com aquelas incursões atrás do refugo da riqueza de nossos irmãos do norte. Durante o inverno que era muito frio sempre de mais de 10º abaixo de zero, a noite chegava às 4 da tarde e os dias eram cinzentos e tristes. De nossa janela essa era a vista que tínhamos da Lake Shore Drive e do Lago Michigan ao fundo.

Olhando da janela de nosso apartamento no 12º andar, o que se via era um grande terreno baldio coberto de neve que eu atravessava todo dia para comprar pão para o café da manhã. Aquela rua lá, depois do terreno baldio é a Wilson Ave. e a transversal é a Sheridan Road


No térreo do segundo prédio dos três que aparecem na foto ao longo da Wilson Ave., funcionava à noite um bar A Go-Go, com garotas fazendo strip-tease, que minha sogra quando esteve nos visitando perguntou o que era e eu respondi que era uma boite A Go-Go. Ela entendeu mal e passou a chamar aquele inferninho de "Cocô-bol", nome que acabou se eternizando entre nós.

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

País sem vergonha; pessoas sem vergonha



O ex-presidente do Senado, senador Renan Calheiros sendo cumprimentado por sua mulher após ter renunciado ao cargo para não ser cassado. Cassado por várias falcatruas que praticou e que começaram a ser descobertas através de inquéritos de CPIs depois que a amante do senador, a dublê de jornalista e modelo da revista Playboy Mônica Veloso



o processou por não pagar pensão à filha que tiveram, pensão essa que viria sendo paga com dinheiro de propina depositado por um lobista de uma empreiteira beneficiada por gestõers do senador. O senador disse que renunciava de "cabeça erguida". Depois da Hillary Clinton, qualquer esposa de senador é fichinha.

17. Ame-o ou Deixe-o

Passei o ano todo seguinte (1969) preparando minha tese de formatura e trabalhando numa agência de propaganda americana chamada CIN (Companhia de Incremento de Negócios) que ficava na esquina da avenida Presidente Antônio Carlos com a avenida Beira Mar. Era divertido. De certo modo funcionou como uma válvula de escape para aliviar a pressão daqueles momentos tenebrosos em que vivíamos. Foi meu primeiro encontro com a "cultura" das agências de propaganda que, em matéria de comunicação visual (e mesmo verbal) era tudo o que se podia chamar de anti-design. Mas me exigiam pouco e me pagavam bem. Consegui até comprar meu primeiro carro, um fusca 59 alemão, uma gracinha. Decidi que não estava mais aguentando a barra e resolvi ir embora do Brasil. Estava me preparando para disputar uma bolsa de estudos oferecida pela OEA (Organização dos Estados Americanos) e ao mesmo tempo me candidatando a ser aceito pelo internacionalmente renomado Institute of Design do Illinois Institute of Technology, em Chicago, num lindo prédio projetado por ninguém menos que Mies van der Rohe, para obter um grau de Master of Science em Visual Design.

Consegui ambas as coisas e partimos para os US em setembro de 70. Fomos primeiro para Washington, fazer um pit stop na casa de meu irmão Sergio que trabalhava lá, na Embaixada Brasileira, onde ficaram a Anna e as crianças (naquela época Adriana tinha 6 e Priscilla 4 anos)e eu voei para Chicago para fazer a inscrição no ID/IIT - era o último dia - e alugar um apartamento onde iríamos morar. Depois de fazer a inscrição fui à casa de uma prima minha em 2º grau, a Titiza (filha do Roberto Maranhão, primo da minha mãe), que era casada com o Roger, um americanão também estudante. Fui num taxi guiado por um motorista negro com cara e jeito de Louis Armstrong, muito simpático. A Titiza me ajudou a encontrar um apartamento aonde eu podia pagar (minha bolsa era para um estudante solteiro e eu levava minha mulher e duas filhas pequenas), só que ficava em Deus Me Livre. Titiza arranjou-me também um colchão inflável com um furinho que fazia com que o colchão amanhecesse vazio, mas dava para dormir. Peguei um avião de volta para Washington para me reunir com a Anna, as crianças e nossas malas e aí então voltar com elas para Chicago. Liguei para a Anna e disse que eu iria chegar tal hora no vôo tal da companhia tal, e o Sergio ficou de ir com ela me esperar no aeroporto. Só que quando saí do aeroporto, não encontrei nem ela nem Servio e me vi num lugar completamente diferente do lugar de onde eu tinha saído para ir para Chicago. Meio aturdido, procurei uma cabine telefônica para ligar para o Sergio e qual não foi a minha surpresa quando entrou uma telefonista na linha e disse que aquele número não existia. Insisti dizendo que há poucas horas tinha falado com minha mulher naquele número. Não adiantou. Aí então pedi que ela me desse o telefone da casa do Sérgio, que ficava na rua tal, número tal, e para minha surpresa e total espanto, a telefonista disse que não existia nem aquela pessoa, nem aquela rua, nem aquele número. Parecia filme de ficção científica misturado com filme de terror. Me deu um negócio. Em primeiro lugar achei que não tinha entendido corretamente o que ela tinha me dito, pois ainda tinha a dificuldade inicial natural de entender a língua, ainda mais por telefone, e liguei para a telefonista outra vez, que desta vez era outra, mas que novamente me repetiu tudo o que a outra já tinha me dito antes. E agora, o que fazer? Estou perdido, não sei se embarquei no avião errado, se saltei no aeroporto errado, não sei nem onde estou. Como encontrar o Sergio e a Anna? Com calma voltei novamente à telefonista, expliquei o meu problema que a esta altura beirava o pânico, e ela inteligentemente, percebeu que se tratava de um mero problema de ignorância minha e de fronteiras e aeroportos diferentes, porém próximos. Algo assim como se eu tivesse saído do Rio de Janeiro pelo Galeão e voltado pelo Santos Dumont sem conhecer a cidade. Finalmente a telefonista me colocou em contato com o Sergio que foi me buscar. Quando ele chegou com a Anna eu cai num choro convulsivo que custou a ser contido. Foi uma das maiores emoções da minha vida.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

16. O Povo unido jamais será vencido

Era ainda estudante do 3º ano da ESDI. Muita coisa estava acontecendo no país e no mundo. Os valores estavam em questão. Aqui muita repressão. A ditadura recrudescia (para usar o verbo empregado de forma reflexiva pelo mais tarde presidente General João Batista Figueiredo) e baixava o pau nos estudantes que mesmo assim não se intimidaram e foram para a rua no evento mais importante de oposição ao regime, que ficou conhecido como Passeata dos 100.000. A ESDI ficava quase em frente ao quartel da Polícia Militar na rua Evaristo da Veiga e de lá saímos para uma grande concentração na Cinelândia para ouvir os discursos inflamados dos líderes do movimento estudantil, entre eles o Vladimir Palmeira, o Travassos, intelectuais e outras pessoas importantes, como o psiquiatra Hélio Pelegrino. As fotos abaixo mostram este momento de grande emoção em que ficávamos sem saber de que lado viria a polícia, enquanto ouvíamos os discursos. O governador do Estado, Negrão de Lima, sabiamente deu ordens para que a polícia não entrasse em confronto com os manifestantes, até porque a manifestação era absolutamente pacífica. Ninguém, sobretudo os estudantes que na época representavam o único movimento de contestação razoavelmente organizado, aguentava mais o sufoco da ditadura e o estopim daqueles acontecimentos foi a morte pelos agentes da repressão do estudante Edson Luiz no restaurante dos estudantes no Calabouço. Aí foi a gota d'água. Os estudantes organizaram a concentração na Cinelândia a qual compareceram mais do que estudantes, pois acabou contagiando e mobilizando todos os que não aguentavam mais a ditadura militar.

Aí está o mártir do movimento estudantil contra a ditadura e a repressão.

A multidão em frente à Câmara ouvindo os discursos.

Esta é a foto emblemática do fotógrafo Evandro Teixeira.
Vista da Câmara para a multidão.Eu estou junto de meus colegas da ESDI


Da Cinelândia saímos pela Avenida Rio Branco em direção à Candelária. Na frente da passeata iam além de figuras notórias da itelectualidade, pessoas como Chico Buarque, Edu Lobo, Norma Benguel, Odete Lara etc. Quando chegamos à Candelária fomos surpreendidos pela cavalaria do exército. Já estávamos preparados com bolinhas de gude que foram jogadas no chão para que os cavalos caíssem, e com eles aqueles que os montavam, ao pisar com suas patas nelas. Em Paris estava acontecendo algo parecido. Na verdade era o inconformismo da juventude do mundo para com os valores vigentes. Só que aqui era pior, pois os militares não afrouxavam o nó, ao contrário, o apertavam cada vez mais. Passamos o resto de 68 em escaramuças com o poder que se constituiu a si mesmo e que durou 21 anos.



Enquanto os Beatles cantavam "Let it be".


domingo, 2 de dezembro de 2007

15. O Design


Minha vida deu a virada definitiva a partir de um toque profundo que recebi de uma pessoa que apareceu na minha vida e que como veio desapareceu. Em 1965 eu trabalhava como desenhista no escritório de um engenheiro de origem alemã, chamado Adolf Fritz Immergut que ficava na esquina da rua Nilo Peçanha com a avenida Calógeras. Um dia surgiu no escritório procurando emprego um jovem engenheiro baiano recém vindo de sua terra. Chamava-se Nudd David de Castro e vinha para o Rio depois de ser preso e perseguido pela ditadura . Fizemos amizade instantânea. Levei-o a conhecer os lugares onde costumava almoçar, e trocamos conversas sobre nossas dificuldades. As dele nos embates políticos e as minhas na afirmação profissional. Ai ele me disse algo como: "Você tem mais dentro de sua cabeça do que o necessário para fazer o que faz; vai querer continuar a ser um desenhista para o resto da vida e não crescer?" Aquele toque foi definitivo. (Desde então tenho procurado o Nudd, sem sucesso, para lhe dizer quão importante e definitivo foi o toque que ele me deu naquela época e que mudou a minha vida daquele momento em diante). No dia seguinte, como se tivesse sido um sinal, o Jornal do Brasil, que eu lia na barca durante a travessia de Niterói para o Rio, publicava uma matéria de página inteira de seu Caderno B sobre o aniversário da Escola Superior de Desenho Industrial (ESDI), tomei conhecimento daquela coisa nova que se chamava "design". Era aquilo! Fui a ESDI e fiquei maravilhado com o que vi. Era mesmo aquilo! Procurei seu diretor, o arquiteto Flávio de Aquino, hoje já falecido e pedi para assistir como ouvinte as aulas do 1º ano para ir me familiarizando com aquela coisa nova e me preparando para o vestibular duríssimo que só admitia 30 alunos por ano. Eu já era casado, minha primeira filha já tinha nascido e a Anna estava grávida da segunda. Tinha que jogar todas as minhas fichas naquele empreendimento. Pedi a meu pai que nos recebesse em sua casa pois eu teria que dedicar todo o meu tempo à preparação para o vestibular e depois para cursar o 1º ano que era em horário integral. Passei no vestibular!! Fui um dos alunos mais aplicados durante aqueles 4 anos. Grande escola, grandes professores, grandes amigos, grandes profissionais. A Escola, na época era enormemente influenciada pela Hoschule Fur Gestaltung de Ulm que foi a pioneira mundial do ensino sistemático do design e que foi desmontada pelo nazismo e remontada depois da II guerra . A ESDI era ortodoxa, cartesiana e muito rigorosa, com alguns professores que tinham sido ex-alunos da nova escola de Ulm, entre eles o brasileiro Alexandre Wollner, e o alemão Karl Heinz Bergmiller. Tínhamos também excelentes professores brasileiros como Gustavo Goebel Weine Rodrigues, Humberto de Moraes Franceschi e Aloísio Sergio Magalhães, Décio Pignatari. Havia outros, mas os citados foram o que mais me marcaram. Os colegas eram em sua maioria filhos bem nascidos de famílias cariocas e alguns discriminavam os três niteroienses de então: Paulo Milton de Alencar Barreira - o PM, Victor Moura Neves - falecido prematuramente, e eu. Eu não percebia esta discriminação que só mais tarde me foi revelada por um dos que eu considerava o meu melhor colega, Arisio Rabin - que hoje é professor da ESDI. A minha aplicação não deixava tempo para que eu percebesse e me preocupasse com essas bobagens. Além do Arisio, o Claudio Mesquita também foi um colega muito chegado. Entre as meninas, a Angela Lemos Basto (falecida tambném prematuramente e de quem falarei em outro momento), A Ilse Cassia de Andrade (de quem também falarei em outro momento) a Virgínia Quental, a Lilian de Assunção Hess, a Ana Luiza Morales, a Solange Jansen (que me acusa até hoje injustamente de ter cortado o revestimento da prancheta dela), a Luli - Heloisa Brandão Orosco, que virou cantora. Os citados e citadas foram da minha turma. Há outras figuras da minha turma e das outras três turmas (eram só quatro turmas por ano) sobre as quais ainda irei falar e que foram marcantes e interessantes.

sábado, 1 de dezembro de 2007

14. O Desenho



O desenho tem me acompanhado por todos esses meus quase 68 anos. Nasci filho, sobrinho e neto de desenhistas. Meu avô, meu tio Hélio e meu pai tinham um escritório de prestação de serviços de desenho técnico na década de 20 do século passado, chamado Elipse. Naquela época, o escritório deles era o mais famoso do Rio de Janeiro. Todos os três eram excelentes desenhistas. O tio Hélio foi mais além e acabou se formando arquiteto. Meu pai, além do trabalho preciosista que fazia para seus clientes, era um artista talentosíssimo. Pintor acadêmico que conquistou todos os prêmios possíveis nos salões anuais realizados pelo Museu Nacional de Belas Artes, tanto em suas seções de pintura quanto de desenho.



Pintor acadêmico ou desenhista, ele era mestre em seus ofícios. Estes são apenas alguns de seus milhares de trabalhos, alguns dos quais tive o privilégio de ser seu colaborador, tendo antes sido aluno humilde e aplicado.





Nasci em Corumbá pois foi para lá que ele foi como chefe da seção de desenho da Comissão Mista Ferroviária Brasileiro-Boliviana para a construção da Estrada de Ferro Brasil-Bolívia. A maior parte dos trabalhos que meu pai fazia eram de cartografia. Ele tinha um grande atelier em nossa casa com uma grande prancheta e todo o equipamento com o qual realizava seus trabalhos a partir de encomendas que recebia de seus clientes. Quando ele percebeu que eu também apresentava um certo talento para aquele ofício, começou a me ensinar os truques da profissão para que eu pudesse ajudá-lo. Ele era muito rigoroso. Me ensinou caligrafia técnica, pois naquela época tudo num desenho, além dele próprio, era feito à mão. Ele tinha um manual de tipos de letras que eu copiava usando uma pauta de quatro linhas. Além da caligrafia ele me iniciou no manuseio da principal ferramenta do desenhista de então: o tira-linhas, que era um instrumento delicado no qual se colocava tinta nanquim e se regulava a espessura do traço para desenhar linhas. Ele é o que se vê na fotografia do início desta postagem. Meu pai me dava como exercício, entre outros, o de desenhar com o tira-linhas dez linhas paralelas sem que estas se tocassem, dentro do espaço de um milímetro e depois vinha com uma grande lente de aumento que tinha, para conferir o resultado. Ou seja, cada linha tinha que ter menos de 1/10 de milímetro de espessura e ainda tinha que haver um intervalo menor do que isso entre elas. Muito difícil, mas possível. A caligrafia também era rigorosamente avaliada e criticada por ele até que eu conseguisse uma uniformidade de valores nos traços ascendentes e descendentes, nas curvas das letras, nas ligaduras entre elas e em outros detalhes. Em dado momento eu já estava pronto para ajudá-lo e o fazia com muito orgulho, dividindo sua grande prancheta com ele num mesmo trabalho. Depois de ter trabalhado com meu pai nos mais variados tipos de desenho técnico, ainda adolescente fui trabalhar como desenhista de um arquiteto nosso vizinho, o Paulo Alberto Vianna Rodrigues, e um entre outros projetos dele que desenvolvi e desenhei, foi o do Teatro Nacional de Comédia, na Avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro, que desenhei desde as fundações até a cobertura, com todos os pavimentos, cortes e fachadas. Mais tarde, trabalhando na Companhia Siderúrgica Nacional, embora meu trabalho lá não fosse de desenhista, o meu chefe, um francês muito distinto chamado Dr. Maurice Lamaziérè também não me lembro como, descobriu meus dotes de desenhista e me pediu para desenhar as plantas de um navio, o "Siderúrgica 10" que ele tentava fazer com que a Companhia fizesse construir. Ainda enquanto funcionário da CSN fui surpreendido sozinho em minha sala por um senhor que abriu a port e me pegou em flagrante com um avião de papel nas mãos pronto para jogá-lo pela janela. Perguntou e anotou o meu nome. Pensei: pronto, deve ser algum diretor, estou demitido. No dia seguinte sou procurado por um entregador com uma caixa embrulhada para presente. Abri-a e ela continha um aeromodelo para ser montado e um bilhete que dizia mais ou menos o seguinte: Caro Carlos, comprei este aeromodelo durante uma viagem que fiz aos Estados Unidos e nunca tive tempo de montá-lo. Espero que você consiga fazê-lo e divirta-se com ele. Assinado, Comandante Paulo Bracie. Fui saber quem era esse tal Comandante Paulo Bracie e descobri tratar-se de um dos diretores do Estaleiro Mauá, em Niterói. No mesmo dia liguei para ele agradecendo o presente e marcando uma visita no dia seguinte. Fui e pedi a ele um emprego de desenhista no Estaleiro. Consegui-o imediatamente. Demiti-me da CSN e na semana seguinte começava no Estaleiro Mauá em Niterói. Lá fui eu de volta para a prancheta, desta vez para desenhar peças de navios para serem confeccionadas nas oficinas do Estaleiro Mauá. Era 0 ano de 1963 e o Estaleiro tinha centenas de operários (eu entre eles) que na época controlavam sindicatos poderosos no governo do Presidente João Goulart. Todos os dias, após o almoço, havia grandes reuniões dos operários dentro do dique que funcionava como uma espécie de anfiteatro, onde os líderes do movimento sindical vinham dar os últimos informes sobre o desenrolar dos acontecimentos em Brasília que acabaram por derrubar o governo e instalar a ditadura. Saí do Estaleiro e fui trabalhar com o arquiteto Affonso Junqueira Accorsi em seu escritório na praia de Icaraí. Aprendi muito com ele. Seu escritório estava atravessando algumas dificuldades e acabei por deixá-lo, indo trabalhar por conta própria pela primeira vez, associado com outro desenhista, o Matheus. Juntos fizemos centenas de trabalhos daquilo que na época se chamava de "planta humanizada", que eram plantas dos apartamentos postos à venda em estandes pretenciosos dos lançamentos das grandes construtoras cariocas que aproveitavam um grande "boom" imobiliário. Gomes de Almeida Fernandes, que hoje se chama Gafisa, Veplan, que nem existe mais, CMI - Consorcio Mercantil de Imóveis que também desapareceu, assim como outras grandes construtoras cariocas. Matheus e eu inventamos um tipo de desenho até então inédito que era construído não mais desenhando-se sobre papel, mas sim colando-se varetas de balsa no lugar das paredes e colando-se as peças da decoração (camas, mesas, armários, etc.) feitos de cartões coloridos e imitando madeira. No final tinha-se uma planta como se o apartamento tivesse sido cortado e se pudesse ter uma idéia aproximada de como ele seria, uma vez pronto. Depois dessa experiência de um trabalho que ficava entre o desenho e a maquete, fui trabalhar num escritório de cálculo estrutural, isto é, calcular a ferragem necessária para a estrutura de um prédio e desenhar as formas onde elas seriam colocadas junto com o concreto. Trabalho sujo. Terminava o expediente com os braços completamente sujos de grafite por baixo, uma vez que as plantas eram feitas a lápis. Todas essas experiência como desenhista me deram uma grande base e vantagem em meus anos de curso superior e no resto de minha vida profissional.
Um outro lado do meu desenho pode também ser visto aqui.

Caetano Veloso estava certo!


Há alguns anos Caetano Veloso observava a falta de educação do carioca que avançava o sinal de trânsito, não respeitando o direito dos outros. Naquela época ainda não estava tão difundido o conceito hoje tão usado - e talvez por isso mesmo gasto - de cidadania. Ainda há pouco fui ao supermercado fazer umas poucas compras (6 itens) e me dirigi para a caixa na qual havia um cartaz dizendo: CAIXA RÁPIDA - ATÉ 15 ITENS. Tinha um casal na minha frente esperando que o cliente que estava à sua frente começasse a ser atendido. Foi quando percebi que aquele cliente tinha muito mais do que 20 itens em seu carrinho. Fui até ele e à caixa e disse-lhe que ele estava errado e que não devia estar naquela fila e que estava usurpando o direito dos outros que ali estavam com os seus poucos (até 15) itens. Ele resmungou qualquer coisa incompreensível e a moça da caixa não disse uma palavra. Tornei a dizer que ele estava errado e que era por causa de atitudes como a sua que jamais conquistaríamos a tão falada cidadania. O casal que estava à minha frente não se manifestou. Ninguém se manifestou. A pessoa que "furou" a fila disse mais algumas coisas incompreensíveis - ou que eu não quis compreender pois o meu direito usurpado não admitia mais que eu compreendesse coisa alguma. A moça da caixa não tomou qualquer atitude. A pessoa continuou a tirar os seus mais de 15 itens do carrinho e a caixa continuou a registrá-los. Cidadania? O que quer dizer isso? Eu em algum momento de minha vida também já devo ter feito coisas piores usurpando o direito de outras pessoas. Hoje aos meus quase 68 anos e com o temperamento que tenho e tendo passado pelas coisas que passei na vida penso mais sobre essas questões e acho que não sou mais capaz de pequenas transgressões. Mas às vezes perco o temperamento quando me sinto usurpado. Sei também que nos dias que correm, a minha admoestação à pessoa que erradamente se colocou na fila errada poderia ter deflagrado uma reação violenta dela para comigo. Hoje em dia campeia a violência e as pessoas se matam por um nada. Eu não fui violento. Fui enérgico na defesa de meu direito de cidadão. Como ninguém mais que estava na fila disse qualquer coisa devo concluir que Caetano estava certo. Cidadania? Qual. . .
P.S. Peço sinceras desculpas aos que acharam que eu exorbitei e prometo que numa próxima situação semelhante saberei me conter, pois afinal não moramos na Finlândia e eu não irei consertar o mundo com o meu destempero.

Lula, o Juvenal Antena do Pavão-Pavãozinho


Ao invés de BOPE, foi o PAC que subiu o morro. Melhor que a Tropa de Elite, o presidente entrou na favela sem disparar um tiro, numa boa, e prometeu cidadania para todos. (Será que como no caso do Michael Jackson houve alguma negociação prévia entre o chefe do tráfico e o ministro Celso Amorim?). Lula com certeza aproveitou a deixa da novela Duas Caras, título que aliás lhe cai muito bem e deu uma de Juvenal Antena na favela carioca Pavão-Pavãozinho. Levou para lá o Plano de Aceleração do Crescimento. Aceleração do crescimento de que? Acho que o Aguinaldo Silva deveria cobrar direitos autorais. Ou será que já tinha sido tudo combinado com a produção da novela? Ou foi ao contrário, "ou seja" - que é como ele diz, que a novela foi o pré-lançamento do PAC das favelas? Se o presidente não for tri-eleito já tem vaga garantida no Projac.
E o que significa este gesto que ele está fazendo para os favelados com a mão esquerda?